“Como no homem as suas qualidades operacionais vêm da perfeição do sistema cérebro-mão, metendo corajosamente mãos à obra, com algum «saber da experiencia feito» pela atenta observação por vezes participada das obras que com frequência ocorriam na minha casa de família, senti-me apto a assumir pessoalmente a sua reconstrução e restauro, sem qualquer ajuda financeira e com sacrifício da minha vida profissional, apesar dos obstáculos e dos conselhos desanimadores de muitos, que diziam «ser o sonho maior que o sonhador», jurando fidelidade à traça, ao estilo e à substância, adoptando sempre uma atitude de intervenção assente numa filosofia de manter intactas as estruturas originais em presença, não perfilhando jamais a postura pragmática muitas vezes praticada de se submeter um bem patrimonial ao valor prático duma função como critério válido para permitir muitas vezes o seu abastardamento.”
Desafio para um sonho, da autoria Dr. Óscar de Figueiredo.
Carlos Flor Vicente + Linhaencarnada
O Jardim, Espelho da Terra
Oficina de Miragens e Fotografia à Vista
Gulbenkian Descobrir
Lisboa
Tapete de pedra. Percurso sobre o material. Linha invisível do tempo. 30 x 30 cm. 11m2.
“A pedra agrega tempo à arquitectura” [e às coisas].
Smiljan Radić, Conferência “Distância Crítica”, Trienal de Arquitetura Lisboa, 2015
Decidimos brincar com as pedras, como dois meninos pequenos. Dezoito cubos de 10 x 10 de mármore Estremoz amaciados pelo tempo. Uma pirâmide de base rectangular de mármore Ruivina.
Toda a brincadeira tem em si a surpresa.. A dificuldade foi perceber se estávamos apenas a brincar com 18 cubos ou 108 quadrados…
Conta…
…uma narrativa: remexer com a mão a nossa própria história, que anos mais tarde, muitos anos mais tarde, teve a feliz coincidência de intersectar no mesmo ponto.
Aí bem no interior de cada uma das nossas fibras nasce um novo sentido: brincar com as pedras não é apenas o cultivo do ócio ou uma brincadeira de crianças, é a amizade e o prazer reunidas no instante… é manusear um pedaço de história de três décadas, quem sabe, com mais de um milhar de anos!
“Deixo Sísifo no sopé da montanha! Sempre se reencontra seu fardo. Mas Sísifo ensina a fidelidade superior que nega os Deuses e levanta rochedos. Ele também acha que tudo está bem. Esse universo doravante sem senhor não lhe parece nem estéril nem fútil. Cada um dos grãos dessa pedra, cada clarão mineral dessa montanha cheia de noite, só para ele forma um mundo. A própria luta em direcção aos cimos é suficiente para preencher um coração humano. É preciso imaginar Sísifo feliz.”
Albert Camus in Mito de Sísifo
Nas Três Marias há um certo mistério que as envolve: a surpresa de estarem na terra. Nas Três Marias há qualquer coisa de estranho: são brilhantes de uma matéria sólida de luz. Nas Três Marias a forma altera-se: parece melhor defenida. Nas Três Marias os contornos são claros. Nas Três Marias reflete-se o céu e não a terra. Nas Três Marias os sonhos chegam de baixo para o alto.
Nas Três Marias há uma coisa que supreende: a coragem e bravura de dois homens que decidiram pintar as estrelas no cume de uma serra de pedra.
“Como conhecemos de início todas as perspectivas possíveis de um cubo a partir da sua estrutura geométrica?”
Maurice Merleau-Ponty in «Phénoménologie de la perception»
Parece impossível descobrir toda a estrutura no rasgo do olhar. É por isso tantas vezes utilizado como metáfora da invisibilidade do mundo. O cubo de pedra bipartido, rasgado e com brilhos diferentes, consegue atingir mais que três faces em todas as possíveis modelações, mas mesmo assim mantêm sempre outras escondidas. O problema mantém-se! A totalidade na nossa vida é apenas descoberta no seu próprio movimento, onde se estabelece o contacto com os outros, aqui representada pelo espelho. A “existência dos espelhos, os quais, no entanto, são os únicos a tornar o nosso corpo inteiro visível para nós” (O Olho e o Espírito, Maurice Merleua-Ponty). O Cubo é apenas uma experiência que tenta penetrar as profundezas da pedra e a interioridade da nossa própria existência.
Todos nós transportamos uma pedra na mochila.